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Veículo Expresso 2222
 


Ensaio sobre a poesia “POEMA GOSPEL”, de Rogério Salgado

 

por Leonardo Vieira Rodrigues*

 

            Neste ensaio teremos como batalha a tentativa de interpretar o poema do poeta carioca e mineiro de residência Rogério Salgado. Poeta que vive a poesia intensamente, pela sua luta do espaço que por excelência é da poesia; falo isso porque entre os gregos (base de nossa civilização) esta tinha uma função religiosa, o poeta era uma espécie de profeta. Função perdida quando Logos racional, ou seja, quando a tekné poietica buscou definir as coisas numa instância metafísica, donde o principio de identidade característica típica da Grécia clássica direcionou os rumos de ocidente via filosofia.

            Isso acontece quando Platão busca reconstituir uma cultura que estava em decadência, ou seja, a cultura grega, porém negando a coisa mais grega: a arte. Mas isso é um assunto longo, vamos focalizarmos na questão da poesia, e a sua devida importância. Ora, quando o fabuloso mundo mítico, imaginativo e narrativo da Grécia Arcaica cujo Homero e Hesíodo que são grandes referenciais deste período; lembrando que estes eram poetas e base de uma educação desse período. A poesia tinha o seu lócus primeiro, perdida, para dar lugar ao sentido do ser na investigação sobre a verdade. Entretanto pode-se pensar que ainda assim a poesia tem este lugar que era seu antes da Grécia Clássica.

            E na contemporaneidade ela (poesia) talvez comporte o lugar na propaganda televisiva, sociedade fruto da reprodutividade técnica, como irá dizer Walter Benjamim, fruto do advento tekné cientifica, onde o poder tecnológico é um dos modos de poder da nossa atual sociedade. Entretanto, para que a sociedade da tecnologia pudesse se desenvolver, esta contou com a ajuda da religião, pois esta teve que acompanhar o novo modo de encarar o mundo, isso fica implícito com Max Weber em seu livro A ética protestante e o capitalismo; com isso temos hoje uma sociedade cuja função é o consumo daquilo que é produzido, ou seja, vivemos o império do consumo, do utilitarismo, do qual qualquer coisa que não passe por este crivo é desconsiderada.

            E por mais que a nossa sociedade atual rejeite o lugar que é próprio da poesia, vários poetas atuais têm lutado para que tal realidade tão superficial, tão presa ao âmbito da técnica, lutam como oposição, como defesa de uma outra realidade da mesma. Entre esses poetas temos Rogério Salgado, escritor de vários livros, entre eles Quermesses, com vários poemas belíssimos, das quais tirei o Poema Gospel para comentar. Este poema é assim escrito:

 

— Façam suas ofertas, senhores!

— Vamos chegando, madame!

— Menina bonita não paga

mas também não leva!

— É vinte, é trinta e cinco!

— Dou–lhe uma, dou–lhe duas

Dou–lhe três!

— Vendido aqui pro cavalheiro...

(SALGADO, Rogério.2009.pág.34.)¹

 

 

            Nos versos deste poema vemos implicitamente uma critica aos templos religiosos, de nossa contemporaneidade, que abraçaram o projeto capitalista; do qual o espaço para o cultivo da fé perde lugar para tornar-se uma espécie de bolsa de valores onde aquele que predispõe a doar mais dinheiro para o templo tem terreno maior no céu. Realçam o espírito da modernidade e da contemporaneidade com o seu vínculo fortemente entrelaçado com o princípio da sociedade privada.

            O que se percebe é que os modos públicos de convivência na atualidade estão permeados, contaminados pela lógica do consumo, pelo utilitarismo, cujas características são modos típicos da sociedade da técnica. O homem se vê entregue às novidades da tecnologia, é escravizado pelas reações econômicas dos grandes quartéis financeiros.

            É, tal como os outros redutos institucionais da sociedade, o espaço religioso por mais que tenha em seu discurso a preocupação cujo dever primeiro é com o cuidado da alma. O que tem na verdade em seu discurso é uma forma de poder – saber cuja função principal é rebanhamento de fiéis, pessoas cansadas da falta de perspectiva que o grande circo capitalista tem oferecido. Este espaço é também um ambiente pedagógico onde se professar um além mundo, lugar da verdade não encontrada neste mundo. Assim, os fiéis destes templos religiosos são educados para serem bons funcionários de seus empregos, a serem bons fiéis; ou seja, não se deve agir de forma contrária ao que está estabelecido dentro das normas morais preconizadas pela nossa sociedade disciplinar como irá dizer o filósofo Michel Foucault.

            Neste fluxo crítico de uma sociedade dominada pela comercialização de tudo, inclusive da fé, que nasce a interpretação do pequeno grande poema de Rogério Salgado, que ironiza perfeitamente como estão sendo utilizados atualmente os espaços religiosos.

            Estes versos aqui comentados só evidenciam o lugar primeiro da poesia, como forma de expressão da verdade subjetiva, lugar este já comentado por Heidegger. Visto que Poema Gospel nos faz repensar o espaço da fé, da religiosidade, que tem misturado os valores da religião com os dos grandes centros comerciais.

 

* Leonardo Vieira Rodrigues é filósofo, poeta e crítico, pesquisador

e professor de ensino médio e fundamental.

 



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 10h04
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Blues: viagem da alma

 

Denilson Rosa dos Reis*

 

Parte 1: Origens

        O Blues tem sua origem entre os negros que foram trazidos da África para atuarem como mão-de-obra escrava nas lavouras de algodão do Sul dos Estados Unidos. Durante a labuta diária, assobiavam melodias simplificadas – apenas cinco notas, chamadas de escala pentatônica – para exprimir os sentimentos de suas almas: dor, lamentos, saudade... Nesta época, não usavam nenhum instrumento, pois eles eram, por parte dos brancos, associados à magia. Assim, a voz era o único instrumento. Com o fim da escravidão, mas não da segregação e da exclusão social, muitos negros passaram a viver do Blues, como músicos em pequenas casas noturnas, as jook joints, verdadeiros barracões de madeira, numa mistura de casa de show, bar e boate. Foi nesta época, início do século XX, que começaram as lendas de bluesmen – homens do blues – que vendiam sua alma ao demônio em troca de tocarem e comporem melhor seus Blues. Lendas e mitos à parte, o certo é que o Blues deu origem ao sofisticado Jazz e ao popular Rock’n’roll. Neste contexto, temos a primeira geração do Blues, ou Geração do Delta, em virtude do Blues ter nascido no delta do rio Yazoo, um dos braços do famoso rio Mississipi. Alguns bluesmen que se destacaram: Leadbelly, Blind Lemon Jefferson, Big Bill Broonzy, Robert Johnson – o homem da encruzilhada – e a Diva Bessie Smith.

 

Parte 2: Da Lama à Fama

          Com o sucesso dos primeiros bluesmen, logo veio a fama, alcançada pela chamada segunda geração do Blues, ou Geração de Chicago. O Blues deixa de ser rural para se tornar urbano. Os instrumentos acústicos aos poucos começam a ser substituídos pelos elétricos. O violão vai dar lugar à guitarra e os palcos passam a ser mais sofisticados deixando as jook joints para a história. Destacam-se neste período: Howlin Wolf, Muddy Waters, Willie Dixon, John Lee Hooker, T. Bone Walker e BB King. Com a popularidade do Rock e o culto ao Jazz, o Blues entrou num período de obscurantismo.

 

Parte 3: Branco de alma negra

          No final dos anos 60 e início dos 70, roqueiros, principalmente ingleses, passaram a tecer rasgados elogios a bluesmen, que tratavam como Mestres. Em entrevistas de bandas como Rolling Stones, os nomes de BB King, Muddy Waters e John Lee Hooker eram citações esperadas. Surge neste contexto a terceira geração do Blues, ou Geração do Pós-guerra, em que se destaca o nome de Buddy Guy. A partir daí, o mundo passou a descobrir o Blues. Nas décadas de 70 e 80, o mundo passou a reverenciar o Blues. Os velhos bluesmen, agora chamados de Mestres do Blues, passaram a fazer shows constantes e gravar discos regularmente, ao mesmo tempo em que jovens músicos começaram a dedicar-se exclusivamente a tocar Blues, embora com uma “roupagem” e uma “pegada” mais contemporânea, mas não menos competente. Neste momento o Blues deixa de ser uma música exclusivamente feita por negros e passa a ser criada por músicos que tenham a alma negra do Blues. Como disse Jimi Hendrix: “Todo mundo tem algum tipo de Blues para oferecer, seja você negro, branco ou roxo”.

 

Professor de História, músico e fanzineiro

Contatos: tchedenilson@gmail.com

Imagem: Alex Doeppre (Novo Hamburgo/RS)



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 09h40
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MONÓLOGO DOS ESCOMBROS

No jardim urbano

Uma flor

Rasga o asfalto

Exalando subversão!

(Anigav - “Na terra natal, sobraram escombros” - O comandante Smedley D. Butler, que encabeçou muitas das expedições, resumia assim sua própria atividade, em 1935, já aposentado: “Passei 33 anos e 4 meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar deste país: o Corpo de Infantaria da Marinha. Servi em todas as hierarquias, desde segundo-tenente até general-de-divisão. E durante todo este período, passei a maior parte do tempo em funções de pistoleiro de primeira classe para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em uma palavra, fui um pistoleiro do capitalismo... Assim, por exemplo, em 1914 ajudei a fazer com que o México, e em especial Tampico, se tornassem uma presa fácil para os interesses petrolíferos norte-americanos. Ajudei a fazer com que o Haiti e Cuba fossem lugares decentes para a cobrança de juros por parte do National City Bank... Em 1909-1912 ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional Brown Brothers. Em 1916, levei a luz à República Dominicana, em nome dos interesses açucareiros norte-americanos. Em 1903, ajudei a “pacificar” Honduras em beneficio das companhias frutíferas norte-americanas”) 

Leia este e alguns outros contos minúsculos no livreto “Maxixe com carne de soja”, por Nauá. Peça exemplar a Paulo Silva (Nanû) através do dadazdawa@hotmail.com



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 00h05
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Cenário abstrato

do nada e das coisas.

O quadro é a geometria

onde a realidade

troca de lugar,

muda de enquadramento.

No cálculo das cores

a visibilidade

não nega

a ordem do imaginário.

 

Almandrade

www.provadoartista.com.br/almandrade.html



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 23h26
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Escritura

 

A Eliton Moreira e Ademir Braz

 

Tecer versos é, por força, fazer sulcos em penedos,

Singrar as pedras todas do mar de si ao avesso,

Derramar suores em gotas no fero vigor do remo.

 

É ferir, à quilha da fragata, as artérias espumosas

Das altas internas vagas. É navegar por entre as rochas

E extrair exangues lascas — vergões por dentro e por fora.

 

É talhar a cerrados pulsos as pedras finas, mas duras.

E lapidar relevos pulcros em fendas pouco profundas.

É um árduo trabalho infruto, que só lega palmas sujas.

 

Mas é preciso fazê-lo! Alguém deve abrir as ostras

Abismadas em seu peito para juntá-las a outras

Iguais na casca e no meio, mesmo que estejam ocas.

 

Por fim: crer que vale a pena mineralizar as lavras

Como fulcros ao poema e inertes todas deixá-las

Inativas pelas fendas — palavras amortalhadas.

 

Para que tu, só tu possas sugar o cerne dos versos

Acumulados em poças pelos teus olhares tétricos

Que desmineram as horas e se desmentem eternos.

 

Abilio Pacheco  (in “Mosaico Primevo”)

 



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 22h58
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Mundo afora

 

 

Um rabisco no céu

me mostra o dia claro

Na linha do tempo

a sombra se esconde

Onde...

A flor nasce do desejo da tarde

Enquanto um pássaro desmonta seu ninho

Beija-flor beija a flor

minh'alma aflora

E nesse instante de algumas coisas

vou seguindo

Mundo afora

 

 

Welington de Sousa - São Gonçalo-RJ

29/08/2009



Escrito por Assim se ouviu no bonde... às 19h57
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